
Estamos cada vez menos atentos ao que acontece à nossa volta. O mundo pulsa ao nosso redor, mas nossas mentes estão presas às notificações intermitentes de celulares e tablets. Entre uma rolagem de tela e outra, deixamos de perceber os pequenos sinais que anunciam mudanças, conflitos e até tragédias. O silêncio antes da tempestade muitas vezes se confunde com a rotina apressada, e quando nos damos conta, o inevitável já aconteceu.
Nos lares, as conversas fluem mais pelos aplicativos de mensagens do que pelos espaços compartilhados. Pais e filhos trocam palavras rápidas, emojis substituem expressões reais, e a presença física não garante mais conexão emocional. No afã de passar para a próxima tela, interrompemos diálogos que poderiam iluminar angústias ocultas, medos silenciados, pedidos de ajuda não verbalizados. Até que o absurdo bate à porta.
E quando isso acontece, nos perguntamos: como não vimos os sinais? O que levou a um desfecho tão brutal? O choque do inesperado vem acompanhado de um desejo urgente de encontrar culpados. A escola? A família? A sociedade? Mas a resposta nunca é simples.
Na série Adolescência, somos arrastados para dentro desse turbilhão. Com planos-sequência intensos, a câmera nos coloca dentro da cena, dentro das emoções dos personagens. A figura do homem comum, o pai amoroso de dois filhos, se desfaz diante da tragédia. A história não se limita a explorar o sofrimento da vítima, mas também o abismo que engole a família do adolescente que empunhou a faca.
Onde nasceu essa violência? Em que momento o menino se tornou um agressor? É fácil condenar e seguir adiante. Mais difícil é olhar para os elos dessa corrente invisível. Um olhar desviado no jantar, um quarto fechado por horas, uma mensagem que nunca chega. Pequenos sinais que poderiam ter reescrito a história.
Talvez seja essa a maior lição da série. No fundo, não se trata apenas do que aconteceu com aqueles personagens, mas do que está acontecendo ao nosso redor. E do quanto estamos distraídos demais para perceber.
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